Dans La Maison 1

Dentro da Casa | Crítica

Adeus, teimosia!

Responsável por excelentes obras, como Swimming Pool – À Beira da Piscina e O Tempo que Resta, François Ozon é um réalisateur de respeito na França, além de um dos nomes que ajudaram a reerguer um cinema outrora decadente. Filma com precisão, sabe a hora certa de fazer barulho e tira o máximo de seu elenco. Mas, à parte esses feitos elogiáveis, é também adepto da arte de misturar gêneros incompatíveis.

Por isso, errou feio, por exemplo, no suspense musical 8 Mulheres, no qual apenas Catherine Deneuve se salvava. Ou em três de seus últimos longas: o incompreensível Angel, o simpático mas perdido Potiche e, pior, o terrível Ricky – onde o caldo desandou de vez. São experiências corajosas e, ao mesmo tempo, difíceis de entender.

Dentro da Casa (Dans la Maison, 2012) soa como uma retomada de Ozon a um cinema compreensível. E igualmente excepcional. Baseado na peça do espanhol Juan Nayorga, o filme recupera elementos narrativos dos mais finos do cinema que o próprio Ozon um dia foi partidário, com Swimming Pool. A dor corrosiva causada pela dúvida, o deslumbre e o perigo da imaginação, e a análise externa de sujeitos aleatórios, que aparentam monotonia, mas guardam segredos amargos.

 

Aqui, o professor de literatura Germain (Fabrice Luchini) está cansado dos alunos sem futuro com os quais precisa conviver em suas aulas. Uma exceção, assim, chama sua atenção: o jovem Claude, que começa a redigir textos a partir de visitas à casa de seu melhor amigo, Rapha. Claude não só é um escritor acima da média, mas sabe como prender a atenção de seu público – que ainda conta com a esposa de Germain, Jeanne (Kristin Scott Thomas).

Dans La Maison 2

Seus personagens são insondáveis: uma mãe que sofre com o tédio constante, um pai frustrado com o trabalho e um filho em plena fase de descobertas. À medida que a história se desenrola, Claude sente que é impossível parar de escrevê-la, e seu mentor – por mais que um final danoso seja anunciado – instiga sua continuação.

Com referências que vão de Sheherazade à pintura alemã, Ozon surpreende pela serenidade. Mas enleva mesmo pela habilidade de amarrar a boa trama – e de tirar dela uma noção singular de como não existe cenário mais frutífero do que aquele concebido entre quatro paredes. Ele faz isso, primeiro, adotando um tom descompromissado, que logo é convertido num desejo indiscreto de saber o que se passa na vida dos outros, e situando seus personagens num mundo verossímil.

O segundo passo do diretor é mostrar que, não raro, a grama não apenas é mais verde do outro lado: é também uma peleja decifrar sua aparência. Em filmes como O Refúgio, em que simplicidade é a palavra de ordem, o trabalho de Ozon é quase tão distinto quanto o de suas grandiosas realizações. Mas, nos últimos anos, ele tem demonstrado um prazer exótico em ser desafiado, quando tenta elevar tramas simplórias à alta potência. É pena. Ozon é bom quando faz o básico, mas é bem melhor quando – como neste Dentro da Casa – une seu talento a um único desafio: o de construir um grande filme.

ASSISTA AO TRAILER

FacebookTwitterGooglePinterest


Comentários



Angelo Capontes Jr. escreve críticas cinematográficas há cinco anos. Formado em Jornalismo, começou a carreira em jornais impressos e sites de entretenimento. Atualmente, é editor e crítico de cinema do filmesfranceses.com.br.